DEIXEMO-NOS SER SÓ SER
ARTICLES • 06-05-2015
DEIXEMO-NOS SER SÓ SER

Boracay, FILIPINAS


 
 
 
A vida reserva-nos alguns tropeções. Uma falência desastrosa, uma separação imprevista, um acidente grave, uma doença repentina, um emprego ou uma relação moralmente desgastantes, uma tese demasiado longa. Às vezes até combinados em sanduíches diabólicas! Como resultado, retiramo-nos para o canto do ringue. Tristes. Digerindo esse último soco destruidor, que por pouco não foi K.O.
 
 
Só que triste é socialmente pouco aceitável. À nossa volta, as pessoas mais próximas, naturalmente preocupadas, mesmo incomodadas, rapidamente se prontificam a querer corrigir, a querer empurrar-nos para a luta, claramente não levaram elas tal murro... a querer devolver-nos ao carril do acertado, a querer fazer-nos caber na normal caixinha das pessoas elegíveis. Pessoas elegíveis não se aninham num canto à espera que passe a tormenta. Pessoas elegíveis vão sair com os amigos, que decidiram ser importante tirar-nos de casa, para nos divertirem, embora por dentro estejamos em pausa, tudo nos passe ao lado, e nada daquilo seja real diversão. Pessoas elegíveis não podem ficar à deriva 3 meses, porque isso não pode ser, embora seja o que sentimos necessário.
 
 
Tão assim é, tão claro está para todos que a tristeza é proibida, que podemos mesmo acreditar que algo se avariou cá por dentro. Que não podemos continuar assim sem um rumo, que temos que ter objetivos, embora projeto algum pareça merecedor de um passo que seja. Nada nos puxa e se a solução é essa, estarei certamente avariado. Então deixem-me em paz...
 
 
E passamos a reagir mal à pressão. O incómodo dos outros passa a ser o nosso incómodo, e ser transparente passa a ser o maior desejo. Aprendemos a teatrar estar bem, um hábito que pode consumir energia vital para recuperarmos. Mas preferível, porque a cada pergunta preocupada, a cada olhar avaliador, está um diagnóstico imobilizador. A cada conversa do mesmo, a núvem, que seria passageira, ganha forma, parece existir mesmo, do tanto que se fala nela... Pode mesmo chegar a palavra do demo: "DEPRESSÃO"! Ir ao psicólogo, é o ex-libris do título, a oficialização cabal de que algo na máquina se escangalhou: está doente da mente!!! Não admira fugir tanto o diabo da cruz...
 
 
Não precisa de ser assim. Deixemo-nos ser apenas. Apenas estar. Sem querer domar, deixando digerir. Os outros que se acomodem à ideia, que têm obrigação disso, mas aceitemos também o papel deles. Esqueçamos essa história da carochinha de ter que ter um rumo definido, daqueles a que se pode chamar carreira, ou objetivo, ou plano. Deixemos que a vontade se desenhe na mais simples das situações. Ponhamos de lado o constante juízo de "já está?", de querer apelidar cada passo "já estou normal?". Porque isso trava o processo.
 
 
Saibamos essa certeza quase divina: na árvore da vontade, a velhice é meramente invernal. Contra todas as aparências, uma e outra vez, de ramos despidos quase mortos, novas folhas nascerão, sozinhas, gritantes de vitalidade. Basta que para isso sigam as estações o seu caminho. Basta que não travemos Primavera. Basta não bloquear o movimento natural do planeta, de lupa em punho, para analisar, avaliar, pensar, reagir, planear, raciocinar, compreender, julgar. É tempo de deixar dar espaço a sentir, apenas fluir, autorizar a núvem a passar...
 
 
Deixemo-nos ser só ser!
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
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P.S: Não quero de todo insinuar que a depressão não existe. Apenas apontar para a tendência inata da recuperação, da mesma forma que todas as feridas têm tendência natural a curar-se e cicatrizar sozinhas, se não lhes mexermos a toda a hora. No entanto, é também verdade que certas feridas infetam e precisam de tratamento adequado. Se tem dúvidas sobre um eventual quadro clínico de depressão, informe-se sobre os sintomas e consulte o seu médico.
 
2 comments
Ana Marques
Na liberdade do SER reside a nossa essência, os nossos valores, aquilo que nos move.

Quando queremos seguir o caminho dos demais, aí sim, deprimimos. Porque seguimos, Não SOMOS!

Muito bem!
in 2015-05-24 10:44:19
Daniela Melo
Só hoje li este artigo, porque só ontem "conheci" o Gonçalo.
Li-o tarde? Não... li-o quando tinha de o ler, li-o quando precisava de o ler... E soube muito bem ler "Deixemo-nos ser apenas. Apenas estar."
Obrigada :)
in 2015-05-13 19:55:34
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