ATOLADO
ARTICLES • 02-11-2018
ATOLADO

 


 

Sempre fui muito sensível à necessidade de diversidade. De explorar, de fazer diferente, de variar, de mudar, de evoluir, de cortar radicalmente aqui ou ali com troncos importantes que me permitam cambalhotar regularmente.



Embora a origem neurobiológica e evolucionária dos nosso traços motivacionais seja francamente complexa, há pontos fáceis de entender e de explicar. A necessidade de segurança à cabeçada permanente com a necessidade de novidade é uma das que me surge como simples: imaginem-se há algumas centenas de milhares de anos atrás, assustados, e à procura de uma gruta para viver com o vosso clã. Um sítio que conheçam bem, que apresente vantagens competitivas em caso de algum possível ataque. Um pouco sobre-elevada em relação ao restante terreno, com boas vistas, a permitir melhor perspetiva sobre potenciais ameaças. A estabilidade como premissa fundamental de segurança, de proteção, de sobrevivência.



Agora imaginem, por outro lado, que uns bons meses depois estão a esgotar-se as reservas de alimento nas redondezas. Falte-vos o apetite pela aventura, e estarão inevitavelmente condenados. Há que partir. Sempre, uma e outra vez, há que partir e procurar o novo, igualmente para sobreviver. É esta a eterna dualidade entre segurança e diversidade.




Hoje parece que deixámos de partir. Regularmente nos vejo esmagados, como numa prensa lenta e implacável, na estabilidade, na segurança, neste marasmo, sempre mais do mesmo, que não tem novidade nenhuma e só empurra os dias cada vez mais depressa para o buraco negro que aí vem.



A segurança do emprego, do dinheiro, a estabilidade da relação, o caminho pré-destinado que assusta mais do que sossega. A velocidade vertiginosa que tudo acelera por ser mais do que conhecido, um dia, outro dia, outra semana, outro fim de semana, tudo mais ou menos sempre a direito, sempre a mesma coisa, sempre uma ausência alarmante de novidade, de sedução, de exploração, de descoberta.



Uma panóplia de pseudo-desculpas a prometer diferente, mas sem o ser: o novo filme, a nova série, o novo modelo de telemóvel, com jeito o novo carro e, muito de vez em quando, a nova casa, ou até o novo filho. Mas tudo igual. Tudo sempre a mesma coisa, já mastigada e regurgitada até à náusea. Onde está a surpresa do imprevisto, o golpe de risco em que pomos tudo em causa e temos que nos reinventar? Onde está a energia e a juventude que manda tudo pelos ares para que possa aterrar numa nova ordem, melhor ou pior, quem sabe, dependendo da matriz ser a antiga ou aquela por definir. Mas melhor na essência por ser diferente.




Avança a idade, aceleram os dias, sucedem-se os natais, tudo cada vez mais rápido, cada vez mais sem usar a nossa cabeça para descortinar coisa nenhuma, por já sabermos tudo. O mesmo ritmo frenético, que nos põe ao espelho, uma vez mais, uma manhã mais, o mesmo barulho da máquina de barbear, os mesmo gestos da escova dos dentes, microscopicamente treinados... E à noite, a mesma rotina de leitura e o mesmo botão do candeeiro, a apagar-se, mesmo antes do despertador nos chamar para mais uma volta...




O que nos poderá salvar deste carrossel, deste movimento circular de arrasto, enclausurado, preso na segurança aparente do que já sabemos, que é ao mesmo tempo o que nos envenena os dias. O que nos poderá salvar de estarmos presos em nós mesmos, um autêntico escafandro, preparado para explorar, promissor à partida, mas que vai-se a ver navega num aquário minúsculo e morno, onde tudo é velho e familiar. Gasto e pestilento. E onde a única esperança é que algum terramoto sem culpa nossa possa estourar com estas paredes de vidro e soltar-nos na liberdade de verdadeiramente nos termos que reinventar... a tempo, antes que o tédio nos assassine a sangue frio, com toda a calma. No ato cruel de assistir, sem estremecer, sem piedade, a este lento esvair de vida que inunda o calendário de dias estúpidos e repetidamente desconexos.



Onde está essa viagem, que não seja apenas mais uma viagem, apenas mais um país, apenas mais uma estrada, um pouco igual a sempre? Onde está esse túnel secreto que se possa escavar um pouco de cada vez, mas que verdadeiramente alimente a esperança, ainda que incerta, de um dia podermos realmente escapar?




Que difícil fica, às vezes, tirar algum sentido de toda esta máquina que aprisiona!...


Não fosse eu saber que tudo isto vive apenas no meu pensamento e poderia mesmo achar que é propriedade do universo, preocupante.


Enfim, nada aqui a levar demasiado a sério, eu sei... porque a frescura da vida acontece sempre no dia seguinte, quando um acordar diferente, sozinho, nos sacode da armadilha e nos permite usufruir de um novo olhar, não contaminado por essa lenga-lenga do costume... e só por isso novo.


 
 
 
 
 
Gonçalo Gil Mata
 
 
 

 

(Foto: Algarve, PORTUGAL)

 

 

 

 

2 comments
eu
Brilhante!
in 2018-11-08 00:00:28
Liliana Rodrigues
Fantástico texto!!
Por mais incrível que pareça, acho que vivemos (uns de forma mais consciente que outros) todos os dias à espera 'daquilo' (seja lá o que for) que nos vai revolucionar os dias, a vida, o casamento e o trabalho!
Mas, respiramos fundo, sempre que o despertador toca e acreditamos na bonança desse dia e que este vai ser melhor que ontem, e melhor e mais feliz e mais tudo o que eu mereço! E assim continuamos....
Parabéns Gonçalo...
Continue a escrever estes textos cheios de verdade e com um tom intenso e realista!
in 2018-11-02 22:19:40
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